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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

“Remédio para TDAH ajuda crianças ou escolas?”


                      Heloisa Villela. Foto: Vanessa Gasquez


Heloisa Villela, jornalista, correspondente internacional e mãe de um garoto diagnosticado TDAH, foi convidada a participar do II Seminário Internacional “A Educação Medicalizada: Dislexia, TDAH e outros supostos transtornos” para falar sobre sua história pessoal e os motivos que a levaram a pesquisar e escrever sobre o TDAH.

Começou a fala com uma pergunta: - Remédio para TDAH ajuda crianças ou escolas? Logo depois, contou  como foi ter ouvido dos educadores que seu filho apresentava “algo de errado” e que por isso era preciso buscar ajuda médica. Relatou ainda como foi a “via-crúcis”:  ouviu vários especialistas nos EUA e Brasil e como alguns deles recomendaram o uso do metilfenidato, decidiu pesquisar mais sobre o tal  remédio e como é feito o diagnóstico, elaborado, normalmente, via DSM-IV (Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais). 

“Consegui uma entrevista com o Psiquiatra e professor Emeritus da Unversidade Duke, Dr. Allen Francês, que presidiu a força-tarefa que elaborou o DSM-IV.  Está bastante preocupado com os rumos que vem tomando a elaboração do DSM-V. Se antes, era possível diagnosticar o TDAH com apenas 6 dos 10 sintomas previstos pelo DSM-IV, agora com o V, ficará muito mais fácil porque pretendem baixar para apenas 3 sintomas”, afirmou.

Na entrevista, publicada pelo site Viomundo, o Dr. Francês afirma achar que existe um aumento surpreendente e alarmante do número de diagnósticos de TDAH e se segue a isso o excesso de prescrições de estimulantes. “Parte disso tem a ver com mudanças feitas no DSM-V mas é, principalmente, consequência da campanha de marketing agressiva da indústria farmacêutica, que começou três anos depois da publicação do DSM-V. E foi incentivada por dois motivos: trazer para o mercado novas drogas que ainda estavam sob patente e por isso mesmo poderiam ser vendidas por um preço alto. Em segundo lugar, nos Estados Unidos houve uma mudança na regulamentação que permitiu à indústria farmacêutica fazer propaganda direta ao consumidor, permitindo a eles colocar anúncios na TV, divulgar informação na internet, atingir pais, crianças, professores e médicos, especialmente clínicos gerais que foram encorajados a ver TDAH em comportamentos que antes não eram considerados parte do TDAH. Isso incentivou diagnósticos fáceis e um grande aumento no número de prescrições. O DSM-V promete piorar isso tudo ainda mais”, afirmou.

Por mudanças,
abaixo-assinado!

De acordo ainda com a entrevista, o Dr. Francês afirmou existir um abaixo-assinado circulando e que cerca de 5.000 profissionais da área de saúde mental já o assinaram logo na primeira semana. Na opinião dele, se esse abaixo-assinado decolar e centenas de milhares de pessoas o assinarem, acredita que o DSM-V vai ter que tomar conhecimento.


Mais informações...............

A jornalista também escreveu um artigo no site Viomundo onde fala sobre o livro “Anatomia de uma epidemia” (tradução literal para o português já que ainda não existe versão na nossa língua), do escritor Robert Whitaker, ganhador de prêmios na área de jornalismo científico.

Parte do artigo diz o seguinte: ..... Estamos falando em medicar e alterar, talvez para sempre, a química do cérebro de crianças de 6, 7 ou 8 anos de idade. E pior, sem saber exatamente o que está sendo alterado! Os mesmos psiquiatras, que receitam os remédios, não sabem dizer quais serão as consequências na vida daquele paciente mirim, dentro de 12, 15 ou 20 anos. Mas ressaltam que tudo é uma questão de custo/benefício. “Não é melhor a criança conseguir se concentrar para assistir aula e fazer os deveres?”, costumam perguntar. Uma amiga minha ouviu o seguinte: “Você não quer que o ambiente, na sua casa, se torne mais tranquilo?” Mãe de quatro filhos, o mais velho com 9 anos, ela garantiu que não. Se estivesse procurando sossego, não teria uma prole tão vasta.

Se os psiquiatras não sabem dizer o que vai acontecer com as crianças medicadas, as estatísticas já dão motivo de sobra para preocupação. Os estimulantes  usados para tratar a TDAH (ritalina e seus derivados) provocam uma montanha-russa diária nos sentimentos da criança. Ela sente o coração apressado pela manhã, depois de tomar o remédio. Algo estranho se passando por dentro do corpo, que deixa a criança quieta, calada e atenta. No fim do dia, normalmente, existe uma explosão de raiva, choro. É como diz o Whitaker: “Toda criança, sob o efeito de estimulantes, se torna um pouco bipolar”.

O doutor Joseph Biederman e a equipe do Massachussetts General Hospital mostraram, em 1996, que 11% das crianças diagnosticadas com TDHA, quatro anos depois foram diagnosticadas com bipolaridade, doença que não fazia parte do quadro inicial. Em 2003, o psiquiatra Rif ElMallakh, da Universidade de Louisville, costatou que 62% dos pacientes jovens com bipolaridade já haviam sido tratados com estimulantes e antidepressivos antes de apresentarem bipolaridade. E Gianni Faedda descobriu que 84% das crianças tratadas com bipolaridade na Luci Bini Mood Disorders Clinic, de Nova York, entre 1998 e 2000, já tinham sido expostas a remédios psiquiátricos......

E, termina concluindo: .....duvido que professores e diretores das escolas americanas, que descrevem os estimulantes como algo simples e necessário tal qual os óculos para os míopes, tenham alguma noção a respeito das possíveis consequências da medicação no longo prazo. Duvido que saibam diferenciar entre uma criança que tem problemas mentais agudos e talvez precise de remédios, de outra com alguma dificuldade de aprendizagem associada a um momento pessoal difícil, que produz um quadro parecido com a TDAH.

Mas eles são rápidos em sugerir uma visita ao pediatra ou, imediatamente, ao psiquiatra. E a avaliação dos professores, a respeito do comportamento dos alunos, em sala de aula, tem um peso enorme no diagnóstico final. Me parece que o assunto é muito sério e que os professores, por melhores que sejam, não estão capacitados para sugerir a necessidade de algum tratamento psiquiátrico.

Os remédios, com certeza, tornam mais administrável a sala de aula com quase 30 crianças. Já pensou se várias forem levadas da breca? Não pararem sentadas um minuto? Todas levam para a classe os problemas que trazem de casa. Mas eu sempre me pergunto o que faziam a Tia Rosa e a Tia Bela (juro que esses eram os nomes das minhas professoras primárias!). Também tínhamos uma sala de aula cheia. E me lembro bem de ter de sentar ao lado do pestinha da turma e chegar em casa com as maria-chiquinhas destroçadas de tanto que ele puxava meu cabelo, tentando sair da carteira. O que será que essas Tias-professoras têm a dizer dessa epidemia de TDAH?
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Para ler na íntegra a entrevista com o Dr. Allen Francês,  clique aqui.

Para ler na íntegra o artigo da jornalista Heloisa Villela, clique aqui.

Para saber sobre o Seminário, clique aqui. 

Para saber sobre o  DSM-V, clique aqui.  
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A informação é o melhor remédio!!!


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